”Fatura Salgada: Custo para Manter o Governo é o Maior em 9 Anos e Comprime Verba de Universidades”

Despesas com custeio, que incluem água, luz e aluguéis, somaram R$ 72,7 bilhões no último ano. Aumento reduz a margem para investimentos e programas sociais dentro do teto de gastos.
Os gastos do governo federal para manter a máquina pública em funcionamento atingiram, em 2025, o patamar de R$ 72,7 bilhões. O valor é o mais alto registrado nos últimos nove anos, segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional. Para permitir uma comparação real entre os períodos, todos os números da série histórica — iniciada em 2011 — foram corrigidos pela inflação oficial.
A cifra reflete o chamado “custeio administrativo”, que engloba as despesas essenciais para a operação dos ministérios e órgãos públicos. Estão incluídos nesse grupo pagamentos de contas de água, energia elétrica, telefone, serviços de limpeza, vigilância, combustíveis, tecnologia da informação, além de aluguéis de imóveis e veículos, diárias e passagens.
Histórico e oscilações
A análise dos dados revela um comportamento oscilante nas últimas gestões:
- Gestão Dilma Rousseff (2011-2016): Os gastos administrativos mantiveram-se consistentemente acima dos R$ 70 bilhões anuais.
- Governos Temer e Bolsonaro: Houve uma trajetória de queda, com as despesas recuando para patamares inferiores.
- Terceiro mandato de Lula (2023-2025): As despesas voltaram a ganhar fôlego. Em 2024, o montante já havia ultrapassado a marca dos R$ 70 bilhões, culminando no recorde atual de R$ 72,7 bilhões em 2025.
O “efeito aperto” no orçamento
O crescimento dessas despesas gera um sinal de alerta para as contas públicas. De acordo com as regras do atual arcabouço fiscal, os gastos livres (discricionários) do governo não podem crescer mais do que 2,5% ao ano acima da inflação.
Como os gastos obrigatórios — como aposentadorias, pensões e salários de servidores — continuam crescendo aceleradamente, o espaço para as despesas livres fica cada vez mais comprimido. Quando a fatia do custeio administrativo aumenta dentro desse limite, sobra menos dinheiro para áreas finalísticas.
Entre as áreas que perdem espaço com o avanço do custeio da máquina estão:
- Investimentos em infraestrutura;
- Bolsas de pesquisa (CNPq e Capes);
- Recursos para universidades federais;
- Programa Farmácia Popular;
- Fiscalização ambiental e do trabalho escravo;
- Emissão de passaportes.
Perspectivas para 2026
Especialistas consultados avaliam que o cenário para o próximo ano é desafiador. Para 2026, ano eleitoral, a margem para gastos livres dos ministérios é estimada em R$ 129,2 bilhões. Com o custeio administrativo consumindo mais de R$ 70 bilhões desse total, o governo terá pouco fôlego para novos investimentos.
Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro Nacional e head de macroeconomia do ASA, destaca que “será um ano difícil para a execução das despesas discricionárias”, citando tanto a pressão das despesas obrigatórias quanto o calendário político.
Já Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), critica a estrutura atual. Segundo ele, a margem para investimentos em um país com as necessidades do Brasil é “medíocre”, apontando para uma “insustentabilidade” no horizonte fiscal caso o crescimento dessas despesas operacionais não seja contido.
fonte: G1













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